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quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Amigos mortos sempre voltam para lhe trazer benesses




"Ângical, distrito de Irecê, pertencente à zona fisiográfica da Chapada Diamantina Setentrional. Abrange toda a área do Polígono das Secas, na Bahia. Pertencente à bacia do São Francisco, é também cenário de vultos misteriosos em seus avelozais. Imensa área rural, faz de seus cidadãos respeitadores de lendas que habitam o meio-do-mato. Pequeno distrito religiosamente animado, é deveras crente, o seu povo, em lendas rurais! Terá trovadores analfabetos e poetas que aprenderam a matemática pra trabalhar e a rima pra “ficcionar”, a levar histórias verídicas ao povo! Onde dinheiro é poupado em enterradas botijas. Onde onças ficam a espreita de moças que andam sós pela vegetação. Onde todas as estrelas do céu se juntaram para formar um único raio de luz, dando início aos fins dos tempos...

Entre tantas outras vovós, Dona Rosinha, como é conhecida a senhora Rosa Dias David, é famosa por ser a melhor a entonar as rezas entre as beatas cantadeiras. Respeitada, mantivera uma vida digna a uma pessoa nascida e criada no meio rural de 1930. Morava em uma casa de taipa, grande e de enorme terreiro pras criações! A grande árvore de algaroba que existia no fundo de seu terreiro, fora cenário pra outras aparições inexplicáveis de amigos mortos... Mas, nesta noite, não fora a árvore que oferecera abrigo a seu amigo morto... sim, sua cozinha!

De sono muito leve, acordou com o barulho de vasilhas se batendo em algum lugar no final da casa. Ao se levantar, ouviu sons estranhos que se equiparavam a uma conversa incompreensível. Caminhou. O som da dita conversa ficava cada vez mais nítido, no entanto, sem nexo, sem vogais, vírgulas, separações frasais, ou, se quer, palavra que a levaria ser uma conversa humana. Eram onomatopéias mescladas ao barulho das vasilhas sendo remexidas por algo, e era na cozinha! “um bicho?” pensou ela... Ao adentrar nesse último cômodo da casa, ela percebeu que havia um homem e que este remexia nos seus armários como a procurar algo. Então, ela perguntou:

- o que é?

- cadê suas ferramentas? Onde 'vacê' as guarda?

Ao proferir tal sentença, o indivíduo mostra sua face! Era Antonino. Seu vizinho há muitos anos e que fora também uma paixonite sua na juventude. Depois de adultos, tornaram-se amigos. Era de sua estima, o velho Antonino. Teve grande penar em sua morte, que acontecera na véspera desta noite extraordinária.

Dona Rosa, com toda sua parcimônia e experiência que havia adquirido com esses casos metafísicos, procurou entender o que o morto queria:

- pra quê, Antonino, homem de Deus?

Entre uma frase e outra que por ventura o morto proferia, suas onomatopeias enchiam os ouvidos de Dona Rosa com sons incompreensíveis, porém humanos. 

- Descavar uma botija aqui perto, braubrauooobraubrua brau brau brau... Entoava o seu canto onomatopéico, o morto!

Dona Rosa, temendo a alma do outro mundo que voltara justamente a sua casa, começa a invocar a força de todos os santos que conhecia e a mandar a alma voltar pro outro mundo:

- vai-te, boa alma que Deus levou! Vai-te pra junto do nosso senhor! Vai-te boa alma! Não quero nada contigo, não! Vai-te!

Das onomatopias barulhentas, surgem palavras:

- botija, Rosinha... brau brau brau brau brau... tem dinheiro lá! 

De súbito, como em desespero, Dona Rosa começa a pedir, em alarmantes rezas, que a alma de Antonino volte para onde ela deveria estar:

- volta pro céu, Antonino, homem de Deus! Não quero teu dinheiro, não!

Ao ouvir tal pronunciação, a alma penada de Antonino sentencia sua última posição:

- lhe desconjuro, couro de jacaré! Como é que lhe dão dinheiro e tu num quer?

E some-se da cozinha de Dona Rosa Dias David, assim.

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